9 de março de 2012

el invierno recorre

(foto: carlos silva)

***

el invierno recorre 
canciones azules
extremadamente tristes
en el hueco de tu infancia
una soledad de ojos enormes
observa quietísima el exterior
en que las palabras quebradas
son un descampado 
hecho de nieve y niños
jugando entre cristales
tarareando inviernos
como si la vida
no fuera aquello que espera después


***

isabel garcia mellado


*

o inverno percorre
canções azuis
extremamente tristes
no vazio da tua infância
uma solidão de olhos enormes
observa quietíssima o exterior
onde as palavras quebradas
são um descampado
feito de neve e crianças
brincando com vidros
trauteando invernos
como se a vida
não fosse o que espera depois

*

[trad: cas]



6 de março de 2012

encadenadas las olas a las alas

(foto: carlos silva)

***


Encadenadas las olas a las alas
el mundo echaba espuma por la boca:

fingía el faro ser
principio y fin de aquella historia
donde yo bordeé muchos miedos 
con mi simple apariencia de cangrejo
donde yo desanduve pasos nunca dados
sin perder de vista el horizonte de mi espalda.

Dejar escondida una piedra en el zapato
a veces es excusa para no volver a tropezar con ella
a veces es motivo para que ella vuelva a tropezar contigo.

Pero este poema habla de un faro enquistado en el mordisco de una ola
de luces que dejamos encendidas en la nuca
y de todas esas luces que se apagan en el nunca.


***

Eva Cabo
http://el-arbol-rojo.blogspot.com/
*


Acorrentadas as ondas às asas
o mundo deitava espuma pela boca:


o farol fingia ser princípio e fim daquela história
onde circundei muitos medos
com minha simples aparência de caranguejo
onde desandei passos nunca dados
sem perder de vista o horizonte de minhas costas.


Deixar escondida uma pedra no sapato
às vezes é desculpa para não voltar a tropeçar nela
às vezes é motivo para que ela volte a tropeçar em ti.


Mas este poema fala de um farol enquistado no mordisco de uma onda
de luzes que deixamos acesa na nuca
e de todas as luzes que não se apagam nunca.


*
[trad: cas]

3 de março de 2012

transparencia

(foto: carlos silva)

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Transparencia

Aí asinamos as novas condicións
e o friso era un mosaico de cerdeiras mortas
aos pés a vertixe negra de formigón e centeo
baixo o verde das náuseas o baleiro
os legóns alicerzaron o sólido teitume
arrodea a pedra fita unha mámoa fluorescente
fóra da nada nada pode verse
a arquitectura estuda as muradellas con razón tenebrosa
e volven as gavelas dos servos que habitaron pirámides
no recanto máis grave da esfera
danse campos de estrugas e searas subterráneas
sementadas de feridas brancas
a besta ten a arca do peito transparente
e nada pode verse
habita múltiples andares a nostalxia
desprega o seu poder en ángulos crebados
coma unha lesma de limo no fígado do río
é a prisión
a metáfora dunha era que arela fugas en forma de trapecio
a prisión transparente
o lugar de onde o aire escapou e deixou relva morta
un rastro policromado de pole velenoso

***

29 de fevereiro de 2012

comme un ogre

(foto: carlos silva)

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"Comme un ogre"

La foule serrée et brulante
comme la bouche d’un ogre vorace
tous ces corps qui touchent mon corps
j’ai peur d’être avalée
broyée
digérée
je lève les yeux et je m’échappe
sur les ailes d’un avion de papier
là-haut
très loin
je caresse les nuages
comme si c’était les cheveux du ciel
je les tresse
j’en fais un nid
un endroit doux où me cacher
en attendant que la foule
desserre les dents et
recrache mon corps

***


*

como um ogre

A multidão compacta e ardente
como a boca de um ogre voraz
todos estes corpos que tocam o meu
tenho medo de ser engolida,
triturada
devorada
levanto os olhos e escapo
sobre as asas de um avião de papel,
lá em cima
muito longe
acaricio as nuvens
como se fossem cabelos do céu
entranço-os
construo um ninho
um lugar doce onde me esconder
esperando que a multidão
descerre os dentes
e cuspa o meu corpo.

*

[trad: cas]

25 de fevereiro de 2012

não tenho chão às vezes

(foto: carlos silva)

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Não tenho chão às vezes



Sem chão não vejo não sinto os pés
Caminho numa calçada sem calçado
Nus os membros inferiores que me reduzem
à locomoção sem locomotiva

Já fiz remover terras sobrantes entre
Entre os dedos que se fazem precipício

A estrada é sempre uma forma de prolongar
o que não sabemos

Não tenho chão às vezes
nem uma nesga de voo se a inquietação me pede
levantamento

Ando corro caio deslizo
O passo é qualquer coisa pensável
mais do que incerteza
paisagens
cosmos de dentro

Não tenho chão às vezes
Sou destituída de trilhados
Amante de névoas

Nublado está o córrego

Entrego os meus passos
ao corpo que me leva
andante.


21 de fevereiro de 2012

a certa idade

(foto: carlos silva)

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a certa idade

a certa idade
unha idade avanzada
a mulher olha e ve o mundo
o seu mundo en branco e negro
que ela perdeu un pouco de vista

a certa idade
unha idade algo avanzada
esta mulher olha e ve o presente
o seu presente e pasado algo borrosos
que ela perdeu un pouco da sua memoria

a certa idade
unha idade ben avanzada
esta mulher axúdase dun bastón
bastón para percibir mellor o mundo
as formas as tres cores os sabores os olores...

a certa idade
unha certa idade ben avanzada
aínda que todas as idades son certas
a man desta mulher segue caminhando
para completar nun lonxano dia o seu círculo




17 de fevereiro de 2012

talvez os polegares não desviem as águas

(foto: carlos silva)

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talvez os polegares não desviem as águas
dobradas pelas raízes
em conversas a fio

pensava nela a regressar das raízes pelas mãos
de como se lembra de toda a água que já foi
e se ouve ainda o fechar da maré
em cada rotação dos seus olhos

ouvia repetidamente
divide a luz se te atreves
e talvez aí a sombra

cada célula
grávida de um segredo:

não espero da água
o que espero de mim
que no código de vez em quando
tenha sobrado um verso:

pode levar-se uma pergunta ao infinito
ou dar-lhe um beijo