20 de maio de 2012

La vida secreta de las piedras

(foto: carlos silva)

***

La vida secreta de las piedras


CUANDO las miro, noto que me devuelven la mirada. Cuando las toco, también ellas me tocan. Cuando les hablo, estoy seguro de que me escuchan y me comprenden.

A pesar de todo, nunca he considerado a las piedras como objetos inanimados. Siempre he apreciado en ellas las cualidades de los seres vivos.

Por eso me fascina la visión de estos capiteles esculpidos.

La vida siempre es evidente y eterna en ellos.

*

Fermín Lopez Costero

in: (Memorial de las piedras,
Premio Joaquín Benito de Lucas 2008. Talavera de la Reina, 2009)


17 de maio de 2012

O sol agóchase no horizonte

(foto: carlos silva)

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O sol agóchase no horizonte
ti, ao lonxe.
Teño atravesados pensamentos de nubes
unha maré de romanticismo espertando
con arrecendo á
herba de namorar
saudade
bravura
salitre
todo unha tolemia de soños silvestres.

*

alba mendez


14 de maio de 2012

ALFABETO

(foto: carlos silva)
(cerâmica: josé teixeira)

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ALFABETO

Abelorios, ave (do Paraíso), arroz, Amelia, almofadas, alfaiate, Almada, améndoas,
Burbullas, Bicos, bágoas, Baixa, begonia, Brasileira, botánico, Byron, brancura,
Carmín, chapeus, charón, chá, chocolate, crisálidas, caixa
(de música), cenoura, cristal chinés, carruagem, cisne, cinema, chafariz,
De, Delmiro, dourados, Dalaiama, dozura,
Daniel, doa, dama, dinosauro, denosiña, dedal,
Ébano, Eduarde, elefante, encaixe, escadinhas, espiga, esgazar, esquío, El-Rei, espello,
Furna, fado, Fornelos, flor, fenicios, fibela, figueira, fentos, fascinio, folla
de lata,
Gatos, gancho, greve, gaiola, Gaxate, Guende, glícina,
Herbáceos, habitáculo, harmonía, hedreira, hélice,
helmo, hemisferio, hipopótamo, humidade,
Ilusións, idilio, Idade
(de Ouro), Ítaca, iniciático,
Lizgairo, liberdade, Lisboa, labirinto,
león, Lago, limón, lord, lícias,
Mulime, merenda, marfim, mitoloxía,
madeirame, Mouraría,
manuelino, María I, Marceneiro,
Noces, Narciso, niño, neve, noivado, navegantes, níveo, Norte,
Ouro, ollos, Olissipo, olor, Odeón, oso, ostra, oseira, océano,
Porcelana, plumas, pêssegos, passarinhos, periscopio, palmeira, paixón,
periquitos prateados, Páscoa, pau-santo, pegas, pombal, pessoa, paspallás,
Reloxo, Rossio, rumor, ruína, rúa, rinoceronte,
Seda, seis, sereas, stuff, Solamar, sémola, sésamo, Sintra,
Simbad, sebes, Sebastião, Strauss, suíza, Sur,
Teas, tritóns, té, tinta, tapiz, termas, tesoiras, trufas, Texo,
transparencia, tranvía, tear, traverso, tule,
Unicornios, unión, Ulises,
Vidros, variable, vivenda, veludo, verniz, visión,
velame,
Xiz, xabre, xesteira, xardín, xacinto, xade, xaneiro,
Zapateiro, zume, zugar, zoco, zócolo, zafiro.

*

Lucía Novas Garrido

*


11 de maio de 2012

La vida sigue en sueño

(foto: carlos silva)

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La vida sigue en sueño

Signo o hambre abierta,
red, hemisferio, mitad
de mí, que soy en el ovalado
incendio
del azul que soy o mentira o nada.

Todo mira y yo impreciso
me adhiero a un manifiesto
ilimitado.

Ven desde tu octava circunstancia,
ven triangular, piramidal,
ven mientras el cielo sigue inmiscuyéndose
en mis recelos. Ven a mí ¡Oh, príncipe de Polonia!

 *

Agustín Calvo Galán

http://proyectodesvelos.blogspot.pt/


*


A vida continua em sonho

Sinal ou fome aberta,
rede, hemisfério, metade
de mim, que sou no ovalado
incêndio
do azul que sou ou mentira ou nada.

Tudo olha e eu impreciso
adiro a um manifesto
ilimitado.

Vem da tua oitava circunstância,
vem triangular, piramidal,
vem enquanto o céu continua a imiscuir-se
nos meus receios. Vem a mim ¡Oh, príncipe da Polónia!

 *
[trad: carlos silva]

8 de maio de 2012

o tronco

(foto: carlos silva)

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o tronco abatido, serrado pelos dedos que o desenharam num arabesco de cicatrizes concêntricas além daquele momento, espelho dos espelhos - ó, o rendilhado!.... - bate-me de chofre e suspende-me o seu desenho, que já iniciara: «era uma vez uma árvore de tronco rugoso e austero, que...»: não conta, não conta porque não sei: só suspeito. centenária? na parte fugitiva voaram corações desenhados por canivetes seguros por feitiços? e as folhas? como eram? talvez tão longíneas que, quando caíam, planavam nos olhos como passarolas e se um pintor montasse cavalete teria de alongar a perspectiva para captá-las em bando, na sua viagem de silêncios até ao fofo do chão, ao manto que se conta quando se fala na suave cama de folhas tenras (secas é uma palavra feia) que existe sob todas as árvores românticas.
isso: uma árvore romântica. que viu muito e nada conta, ou, porque o amor nunca prescreve e na sua doçura ameaça exércitos, então foi abatida, serrada, e ei-la despojo inadmissível como prova, já: os “gordinhos”, os corações desenhados e autografados com a violência das setas egoístas dos amantes, essas provas não circunstanciais e capazes de abalar um júri renitente em aceitar a culpabilidade histórica das cicatrizes concêntricas, esses documentos que são vivos além do pó porque a memória não tomba quando uma árvore cai, e evolaram-se do momento e deles não conta a foto, e eu reafirmo só o suspeito.

curioso momento este, esta anatomia fotográfica, este dissecar de ilusões, esta pantomina da realidade: calhe, e a foto foi captada além esquina e mercê de obras de requalificação, como costumam rezar as placas que se desdobram em explicações para justificar a morte d'algo. talvez fosse dum quintal particular e esta imagem é-me grata pois por trás visualizo uma casa que envelheceu namorando várias gerações, talvez um banco à sua sombra (a tal cama de folhas de regresso...), talvez mesmo um baloiço abandonado, toda uma pátine que resistiu até ao momento da placa e das obras de requalificação a matarem, e nos serrarem a memória. talvez nada disso, cala-te Carlos, não abuses da ficção: é um toco velho e podre, são os restos dos tempos, é o relógio parado, é a vida e um seu momento. talvez.

mas prefiro a minha ilusão. uma jangada. tábuas aladas. uma mesa tão gigantesca que se derrubaram muralhas dum castelo para introduzi-la no seu salão mais nobre e belo, ou, talvez (talvez) qualquer uso não discriminado e para aqui nada importante à excepção das suas sobras: o desperdício industrial que nas mãos duma criança faz um tronco de árvore pular e correr, e o mundo avançar com ele como se no poema, esta poesia tão sorridente como 'a sua' criança que da tábua de nada moldou um carrinho de rolamentos e desliza nuvens de imaginações à velocidade estonteante do seu amor infante, da sua fé na mestria da construção, quiçá e sem o saber sentada sobre um coração que alguém, da tal casa com história e que tem um banco sob os ramos que suportam um baloiço, e sobre tudo isso paira, secular, uma árvore, onde alguém antes dele desenhou e sem nada disto prever. gosto mais deste talvez.

gosto tanto dele que não me alongo, regresso ao retrato e pisco-lhe um olho cúmplice, matreiro, maroto: «á magana, o que tu viste...». e sorrio, sorrio pois. não remato dizendo que prefiro a ilusão à realidade, que do retrato do cepo duma árvore carunchosa construí um romance, castelos, carrinhos de rolamentos, e muito (muito) amor. tudo treta, meus amigos. e treta de quem o pensou: eu conheço-a, à arvore. ei-lo, o truque, a carta na manga, o segredo, a batota do narrador. conheço-a porque conheço-lhe o baloiço, corri que nem um doido no seu carrinho, namorei e namorei-lhe no seu colchão fofo (isso, isso), e também tive orgulho em possuir um fabuloso canivete. reconheci-a mal a olhei. depois foi fácil: fechar os olhos, sorrir e recordar...

foi assim... :-)

 *

Carlos Gil

http://nova-voz.blogspot.pt/

5 de maio de 2012

o timbre de um riacho segue assanhando a cabeleira das águas

 
(foto: carlos silva)

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o timbre de um riacho segue assanhando a cabeleira das águas
a vida em matéria se acumula nas margens como quem encosta
a cabeça para ouvir um instrumento molhado de sol

o dorso de um tronco se posta como ilha na cabeceira
faz-se palco para os pássaros que calam o canto e as asas
acalanto fluvial

há essa árvore que só é vista do mesmo modo como se vê a música

e há meus olhos, um par de seixos sob a paisagem

*
katyuscia carvalho

2 de maio de 2012

oh torres de poetas que o século abrasou

(foto: carlos silva)

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oh torres de poetas que o século abrasou
chorando por un día que nunca ha de volver
nun voo de voz aberta aos séculos vindeiros
virade nun afago de ventos regresade
na boca como orballo de cinza ou de silencio
con ánforas con días e tardes e camiños
con longas alamedas enchidas de paxaros
e dádeme o poema
dos troncos devalando no outono río abaixo

das vías que cursedes baixando un lento val
pois todo murcha e deixa sabor de hortensia escura
de imperios que caeron cidades derrubadas
ou melros embriagados
igual que un verbo vello en linguas esquecidas
gardade este transporte acaso esta ruína
os círculos deixados na terra polo voo
das épicas da vida das glorias da existencia

e longa e coidadosa mirada esparexede
os líquidos escuros con lenta inspiración
madeiras deliciosas as vides da ebriedade
enchidas co fulgor da sombra anoitecida
oh árbores tronzadas oh tallos do destino



*

Manuel Forcadela