10 de junho de 2012

Suspensão

(foto: carlos silva)

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Suspensão

Quem estiver parado dentro deste cais
só de sonho aparelhado,
de ansia consumida pelos ventos abismais
que sopram nas cordas da vida,

réstias de uma dor calejada nos braços do barco
entrelaçavam a esperança com o medo do largo
com o resto do mundo que havia

agora o silencio leva-o até qualquer ilha deserta
acolher na pele o sol marejado,
na agridoce espera de cada dia incerto
definha a saudade
petrifica o cordame enrolado,
há nós górdios que lhe vedam o horizonte
e o prendem ao presente emaranhado

e o passado que conte tudo o que ainda é verdade
nesta absurda espera dos dias
em que está suspensa a liberdade


*


Luiz da Nóbrega


7 de junho de 2012

tumefacto

(foto: carlos silva)

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tumefacto

noites escorrem epilépticas nos cabelos do húmus
selváticas eclodidas das fendas de carne
engolem o eixo germinado de mundo

tumefacto é o facto de tu me fazeres

soçobram epidermes entre dedos de riste
quando se possui com o universo
o verso único enterra-se para cima

tumefacto é o facto de tu me fazeres

abóbadas agrestes desprendem plumas amarelas
para que a carne se coroe de alvura corrompida
tangida no gemido das salivas

tumefacto é o facto de tu me fazeres

olhos circundam a erectosfera ensalivada de lua
em busca da cegueira da ebulição primeva
a catalepsia desapercebida do rasante

tumefacto é o facto de tu me fazeres

desenho raízes que não se decifram
em fetos que se desconhecem
pela inutilidade emparedada das seivas labirínticas
envolvo-te fluída na minha rigidez

tumefacto é o facto de tu me fazeres

*
bruno resende

http://www.spabilados.net/

4 de junho de 2012

Ambocaçon pa la Luna Chena an Touro a partir de ls bigotes de Ártemis Gátara

(foto: carlos silva)

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Ambocaçon pa la Luna Chena an Touro
a partir de ls bigotes de Ártemis Gátara


a partir do azul, Janela que entreabre para que o corpo celeste penetre a Casa, invoco a cinta de la raposa e a transparência, para entusiasmo do felis catus que ronrona sobre a Mãe.
o leite sorvido até que o corpo articule a marcha, a mobilidade independente do receptáculo visível, é a continuidade da seiva que se move emotivamente para o vagar das coisas – contemplações; para a
pressa – exaltações da infância terrena que é a vida.
pequenos infantes da mesma ninhada em corpos e cores distintas, compõem a tela terrestre.
apesar da magnitude dos traços, dos movimentos subtis, do entusiasmo, da presa e do predador a que a sobre_vivência  impulsiona, apesar disso e do teatro primordial, do paganismo ou das infecções existenciais, das lutas e das quietudes; do Cosmos, só se avista o azul da Janela. Aberta ou fechada, em correntes altas de Lua Cheia, serenidades celestes ao esplendor Solar, ou manto divino de Selene nas suas variações de humor, forma, em perspectiva telúrica ou da magia nocturna de Hécate, o azul é a cor dominante.

amamentar a preto e branco o Ser já nascido com bigodes, que recebe as ondas mais vibrantes da Natureza, é sorte ao colo da cegueira.
o pequeno felino nasce para não ver, para se não ver. higiene protectora da origem num ambiente atormentado pelo desnecessário. dorme por sistema de conservação de energia.

preto e branco sugere o binómio – dois nomes – Ártemis Gátara. ciosa de si para Si.
a cópula é dolorosa para as fêmeas, contudo atribui-lhes a autonomia da procriação. fecundam óvulos separados que se reflectem na pluricoloração dos filhos.
lamber é um ritual de limpeza. o prazer nasce da despoluição.
possa a humanidade lamber a mente, urinar nos campos sadios, ronronar o infinito de cada percepção  derramar-se no sono como caudal lácteo da selva virgem. Rom.

Amar é criar Rama. Om Namo Rama Om.
é Estar habitado pelos deuses. as divindades exaltam-se entre Si.
subir ao telhado e uivar o cio é guerrear-Se.
o canto atrai as forças, abre canais de Energia Cósmica sobre a pelagem de Ártemis Gátara.
descarregar o cio a céu aberto para atingir a plenitude. Existir virado para dentro do ventre da Mãe.

a deusa Fastet dança a fertilidade em torno das searas da memória.
a Janela é um pedaço de floresta esculpida pelo homem.
Artemis Gátara presencia a Unidade de uma linhagem milenar.
co-habita miando a tolerância, minimizando o artefacto dos dias. no conforto circunscrito só a meditação viaja, descobre novos mundos.
desfazendo a meada, tudo habita nos olhos de um gato mas não se pode morar neles.
a Suspeita arranha e desnuda a veia da ousadia. ROm.

o que a alvura dos bigodes captam a partir da escultura Aberta, só a memória Cósmica lembrará na cadência das estrelas.
nesse altar do mundo em que felis Gátara ronrona redime-se a pequenez no cálice do olhar.
a humanidade formiga-se em torno do frasco de açúcar.
o Sabor é um rio no palato divino, sagra-se no organismo dos Simples. na lembrança da imaginação de um pardal, mia o desejo evitado de o devorar sobre a pedra lavada. mia para o exterior a epifania do seu corpo coberto de penas na dança erótica da grande vitória.
“Mio (tanta pena de ti)! ROm.”
“ó ai rom-rom
ó riu miu mui”
cuntinou la bielha tie ambalando l sou nino ambaixo la cápia de l sol.*

*

fátima vale


1 de junho de 2012

recursos abandonados

(foto: carlos silva)

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Recursos abandonados duma terra desbravada...A rusga dos vinhos calejaram as mãos que afagavam as aduelas e os aros das pipas. A torneira secava. Os animais perderam as forças coçando-se -se nas cangas polidas, e marcharam no sentido do cepos. Entretanto, caíam os telhados na debandada...



Virgílio Liquito


29 de maio de 2012

os muros

(foto: carlos silva)

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OS MUROS

"O Exército de Estados Unidos difundiu un informe de 2.500 páxinas que, entre outras cousas, relata que os soldados norteamericanos simularon fusilamentos de prisioneiros".

Os muros
non entenden de enganos.
Todo o que ante eles sucede é para eles certo
porque non teñen máis mirada
ca os seus brazos.

Os muros
malia non ter ollos
saben chorar, amargos,
un pranto de óxido
por todos aqueles que, tendo ollar,
non queren saber do terror
que o mundo asolaga.

Os muros
son silenciosos na mágoa
non falar é a súa esencia
o obxecto co que foron erguidos:
"gardaredes os segredos desta casa".
Sen ollos e sen boca
só poden sufrir certamente
abrindo fendas na alma.


*



26 de maio de 2012

cena 54

(foto: carlos silva)

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Todos os actos de amor são diferentes. Todos os actos variam.

Agora, finalmente, está tudo pronto. A claquete está pronta para a cena 54, take 1: aquilo que não é uma piscina (“E no início deste mês, o governo solicitou candidaturas de investidores interessados na compra de piscinas pertencentes a propriedades retiradas a Fannie Mae, Freddie Mac e à Administração Federal da Habitação”); aquilo que não é uma casa de campo com cavalos, uma cavalariça, uma casa de cavalos, mas sim um momento de cavalos (“en que la yerba / crece en la memoria”); aquilo que não é um templo em honra de Pliohippus, o primeiro cavalo, a comer folhas no Máximo Termal de Paleoceno-Eoceno e a ficar lentamente cada vez mais pequeno. O que vemos é um museu para um telhado. Ou será o telhado a fantasia perfeita, uma canção mesmo, para a resistência excêntrica do dois-por-quatro? O que estará do outro lado da sua inclinação, o que será a sua inclinação? Apenas outro tormento de disciplina. Tábuas de abrigo apoiadas por vergas, todas juntas para cantar pela sua ceia. Algumas adorariam flutuar num rio e aí se tornar madeira à deriva. O telhado intacto é composto pelas telhas do nosso descontentamento ou, antes, da nossa conveniência, colocadas numa fundação que é coroada por pedestais, as leis-base da justiça. O cavalo que não esteve lá sabe que o gesto do espanto – a boca aberta de Sócrates ou a boca falante de um cavalo – fará diferença na mudança do mundo, irá ditar o tempo.

“Ainda hoje a terra treme.”

Por outro lado, gostaria de aqui ficar, a trocar pontos de vista sobre esta meditação acerca da madeira, absorto no humilde e no abençoado, arrebatada pelo que é impossivelmente pitoresco. (Porque é que nos interessamos pela beleza quando os prazeres são uma imprudência da agonia?) Quem é que se está a convencer com este estádio do amor, da leitura entre as tábuas de um clube de cães tornadas monumento e os elementos que eu também gostaria de reconhecer e considerar? Mas eu nunca imaginei aquilo que é óbvio à medida que nos aproximamos da cena a preto e branco. Se não construirmos um farol devido à falta de um oceano, é apenas natural na terra, perto da hera e da madeira, quando a luz e a sombra de uma torre indigente traçam uma assinatura embelezada de alarmes – longe do doméstico, mas possuidora de qualidades inerentes que relembram habitações. Para o crime, a memória, uma história que “(aquí, ahora) no tiene sentido, no tiene destino.”. Poderíamos aprender com Kafka – nós podemos atravessar a porta e ver o que vem a seguir, por cima e por baixo das fundações de pedra, o vestibular santificado na luz do dia, ar fresco onde os cães ladraram. Assim o parece à nossa certeza…

Conseguem encontrar o… princípe sapo? A família dos esquilos? O poço da solidão? O mito da memória que permanece obscuro? Conseguem ver a dura etiqueta de um número que  levita? Já leram o Guia dos Perplexos de Maimonides? Era esta aparência desdentada de uma porta a entrada para as quatro paredes que rodeiam uma fonte ou, de uma forma igualmente preciosa, uma escola ou uma casa de culto para os escravos e seus filhos – tudo o que é exaltado para permanecer escondido? Eu irei, finalmente, transpor esta vedação, tal como Fontaine o fez da cela nr 107 no Forte Monteluc onde ele desmantelou a porta, tábua a tábua, e escapou! A guerra está no outro lado de todos nós.

A luz é tudo que existe.

A coup de foudre. (Um toque de trovão) Quando não há amor à primeira vista, lembramo-nos dos elementos (para os pensadores de Upanixade, o verdadeiro sacrifício do cavalo [aśvamedha] foi obtido através da percepção da identidade das partes deste sacrifício e do universo). As hierarquias são feias – elas são antigas. Mas também o é a liberdade. Porquê chamá-la de arruinada? Uma angústia deste tipo é demasiado recente. Chamamos-lhe uma imagem em movimento (em câmara lenta). Mas porque não chamar-lhe um edifício? Poderá estar correcto chamar-lhe útil. Se pensarmos nesta barraca baloiçante, mas elegantemente nobre, como uma morada para a arte, isso deve-se à sua beleza e inclinação, a sua inclinação para a frente, no seu desejo animal espelhado (recompensado através da polis arquitectural do Edifício Dançante em Praga) é como se fosse algo oracular, mas sem palavras – aquilo a que poderíamos chamar de espectacular. Do outro lado, por trás da antecâmara, seguindo o mito e história, encontra-se o templo da abóbada que não necessita de um telhado de telhas por direito: um local de casamento (“o que Deus uniu, o Homem não deve separar.”)

Quem diria que o prazer não é útil?

Pergunto-me se estarei a construir um monumento a partir de um destroço. Onde a madeira se move, deveria haver fogo. Mas eu imaginei o futuro à luz do passado. Isto é um edifício sem destino e não uma cabine abandonada sobre pernas partidas de pedra (duas pernas de pedra vastas e sem tronco / permanecem no deserto). Esta é a voz de um poço de solidão, templo para o que é constitucional, monumento ao vento, à chuva, ao sol. E se eu estiver certa, estou errada. E se eu estou errada…

Havia uma velha mulher
Que vivia num sapato.
Tinha tantos filhos
Que não sabia o que fazer.

Estas tábuas, conhecidas e estranhas, levantam o telhado. Não possuo nada. Alta como um animal, baixa como um animal: “Um cavalo é um cavalo, claro, claro. E ninguém pode falar com um cavalo, claro, a não ser que, claro, o cavalo, claro, seja o famoso Mr Ed!” Se menosprezamos o cavalo, fazemos mais do que nos relegar aos fantasmas, inquietos numa eternidade a caminhar pelas tábuas. Aqui está um registo de escape. Desejo olhar para o outro lado. Não posso olhar. Tenho de olhar. Tenho de ver aquilo que está mesmo à minha frente. Comparações de memória sobre o tempo na graça é o espaço do lugar.

Não é estranhamente invulgar que o local onde não me pude refugiar contribui para uma imagem na qual eu devo refugiar-me.

Como se eu soubesse que esta barraca que está a inclinar-se insistentemente para o lado oeste (ou estará a virar-se noutra direcção?) não é qualquer tipo de defesa para um poço de água de nascente, mas uma cavalariça de um cavalo em particular. Mas eu apenas sei que este local é do cavalo. “De acordo com uma história que tem sido transmitida, Deus criou o cavalo árabe a partir de uma mão-cheia de vento. Na tradição árabe, as éguas são mais estimadas que os machos e muito poetas cantaram os louvores destas “filhas do vento”.

Quando os nomes são ao acaso, arbitrários, contingentes para as tábuas das paredes da casa, para o cavalo, que podem ter sido abrigados dentro dela quando não era a casa de uma cria, quando, uma vez, a porta cabia e era própria, sob o charme, digamos, da ferradura, poderá haver um bordo – uma prancha até – onde a vida se inicia: a entrada para um mistério. Porque será que este telhado ainda está de pé? (qual o significado de tudo isto?) Paus e pedras podem quebrar os meus ossos, mas os nomes nunca hão-de me ferir.

Onde e quando chegarei eu, escaparei do choro e não me inclinarei sobre ti? Tento e falho ao atirar estes velhos sapatos quadrados, estas botas Prada com buracos relativamente mais pequenos do que as falhas na porta da estrutura inclinada, que manifestam orgulho, ignorância, pobreza, mistério, obscenidade ou curiosidade – estas botas são feitas de pele e não servem mais. Eu uso-as para honrar a perda da vida, e a morte é o valor extra do que elas me recordam. Pior, uma indulgência numa imperfeição estudada. E lamento pois não me sinto mais confortável nelas a maior parte do tempo. E torno-me um pouco perversa e uso-as quase sempre para que os buracos aumentem depressa e finalmente, espero, passem a parecer algo da natureza que não possa ser usado –  que possam deixar de ser usadas brevemente,  que possam ser inúteis. Susie, querida Susie, o que há de novo? Os gansos andam descalços porque não têm sapatos. Talvez eu me sinta forte ou certa o suficiente para dizer a mim própria, sem ritual ou revelação ou desastre natural: irei tremer nas minhas botas. Para que interessa, afinal de contas, um nome para estes: hipparions, cavalos ibéricos, mustangs, cães, cavalos das estepes, …

Ainda agora a terra está a tremer, disse um sobrevivente do tsunami, a sua cidade uma praia de erva onde apenas as casas maiores são carapaças, sombras do que eram anteriormente.

“Acredito mesmo que, tal como um animal, posso dirigir-me aos poderes que existem” - escrevi-o numa carta que nunca te enviei. Como é que nos libertamos do objectivo correlativo do choro a não ser ao renunciarmos à culpa estranhamente histórica e irremediável – ou será mitológica? – tendo tendência para a parede de marfim por baixo da vedação em cadeia no Oeste, a norte da floresta, sendo humildes como se fosse, dentro do suspiro, a oportunidade da vida? As filhas do vento recordam-nos que conseguimos voar. Esta casa de hóspedes de través, sem alicerces, é aquilo que troca os elementos sem um cavalo, sem uma fonte, e que nos repreende para que possamos esquecer para lembrar.


*
susan pensak
(original aqui)

 ...
[tradução: lurdes fonseca]

23 de maio de 2012

A questão é essa mesmo: não somos nada!

(foto: carlos silva)

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A questão é essa mesmo: não somos nada! Que somos nós? Um piscar de olhos. Minúsculas partículas… Pó cósmico, não é o que se costuma dizer? Minúsculas partículas perdidas no meio de biliões de outras pequenas partículas... e esses biliões de partículas habitam numa estrela em tudo igual a biliões de outras estrelas. Vês essa camada de pó aí no tablier? É como se fosse uma pequena nação. E nós? Uma dessas partículas. Quase invisíveis! E agora varro com a mão este aglomerado de pó... e assim desaparece uma nação e assim desaparecem seus habitantes. Agora sacudo as mãos para me livrar do pó. Voilà!
E mediante isto, ficas tu escandalizado por eu ter ‘arrumado’ um gajo. Ruanda? Conheces? É- te familiar o nome? Antes de tomares o pequeno-almoço, dezenas de crianças eram chacinadas. Não ouvi da tua parte qualquer frase reveladora de empatia, qualquer comentário sequer. E enches-me os ouvidos por eu ter fechado os olhos a um polícia gorducho!...

E a placenta rebentou! O momento era chegado! Nove meses de ansiedades, semanas de preparação, a placenta ao rebentar retirou-lhe o baralho das mãos, remisturando as cartas até então meticulosamente ordenadas. Sentiu-se como levado pela corrente de um rio – e era uma sensação tão ou maís física do que mental. Sentiu que todo o auto-controle, todas as convocatórias anunciadas a todos os recantos do seu corpo, eram coisa pouca perante aquilo. Olhou lá para fora pela única janela das redondezas. O sol pareceu-lhe maior.

Hugo Nascimento Veloso