19 de junho de 2012

faro

(foto: carlos silva)

***

Faro, vendaval de rompientes,
espuma que ciñe el aire
y vuelve encaje el oceáno,
eres luz derrochada
en el ojo de la sombra,
martirio solitario del agua,
babel blanca de olas
donde duerme la esperanza.

Norte, sur, este y oeste,
tu mirada poderosa atraviesa
la rosa de los vientos
y enhebra el éter
a los cuatro puntos cardinales.

Faro, largo abanico de luz
que, en la noche oscura,
conquista el horizonte,
dios y señor de los arrecifes
que alegra la soledad de la vela
y circunda la tierra,
eres algo así
como un sueño de piedra
que late en las venas,
carnaval nocturno
que se viste de estrella.
 
*
 
Fernando Luis Pérez Poza


16 de junho de 2012

De plus en plus silencieux

(foto: carlos silva)

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De plus en plus silencieux


Mes amis sont partis sur les toits,
            ils sont partis dans la lévitation diabolique du ciel.
Piégés, peut-être, par cette veine cave de l’air qui se perd toujours,
                        épaisse, par-dessus les immeubles, vers le crépuscule.
Abandonnés. Le toit, comme l’ongle bleuâtre d’un mort,
                        laisse tous les jours une traînée de sang dans le ciel.

Oui. Les amis d’hier ne sont plus, tu ne les vois plus se taire
            sur le toit. Tu n’entends plus des pleurs dans la rue.

J’ai voulu leur dire toute la vérité :
                                   que j’ai étranglé mon mendiant,
                                   que je l’ai jeté par la fenêtre.
En bas – voulais-je leur dire –, en bas s’étend l’asphalte obscène,
            guettent les civils qui donnent des ordres
                                                           et serrent les rangs.
La peur a rongé la ville jusqu’aux toits,
                                   par-dessous les murs en verre et leur bruissement.

Mais ils ne sont plus là-haut, soulevés par les câbles bien graissés,
par les roues hypnotiques du désespoir.
Il y a longtemps, comme avant, comme après, qu’ils
                                   sont étrangers à tout cela.    

*

Linda Maria Baros

*


Cada vez mais silenciosos


Meus amigos partiram sobre os telhados,
             eles foram na levitação demoníaca do céu
Sem saída, talvez, por esta veia cava do ar que se perde para sempre,
                         espessa, no topo de edifícios, perto do anoitecer.
Abandonados. O telhado, como a unha azulada de um morto,
                         deixa todos os dias um rasto de sangue no céu.

Sim. Amigos de ontem já não estão, já não os vês calarem-se
             no telhado. Já não ouves choros na rua.

Quis dizer-lhes toda a verdade:
                                    Que estrangulei o meu mendigo,
                                    que o atirei pela janela.
Em baixo - queria dizer-lhes – em baixo estende-se o asfalto obsceno,
             vigiam os civis que dão ordens
                                                            e cerram fileiras.
O medo atormentou a cidade até aos telhados,
                                    por baixo das paredes de vidro e seu ruído.

Mas eles já não estão lá em cima, levantados pelos cabos bem engraxados,
pelas rodas hipnóticas do desespero.
Há muito tempo, como antes, como depois, que eles
                                    são alheios a tudo isso.

*

[trad: cas]

13 de junho de 2012

OS VALES QUE PISAR NUNCA PISACHES

(foto: carlos silva)

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OS VALES QUE PISAR NUNCA PISACHES

Agora que te fuches.
Mais non: agora que a seca  volve co seu dente fóra
Heiche de relatar as cousas ao meu xeito,
non os vales que vías nin o acento,
tan doce -disque.
Quero que saibas dos carreiros de lama,
aqueles que pisar nunca pisaches,
para buscar os cabalos tépedos da noite.
Heiche contar a golpes.
Heiche contar a golpes de machado e de acordanza
o lento pedregal deses camiños onde ferve,
húmida e rouca e pobre, unha canción sen chiste
para berces retecidos de arame e de codeso.
Coñecín unha muller con doce criaturas
que nunca a un home quixo –iso dicía.
E outra que coñecín agochaba o seu pranto  na artesa  de amasar,
facía o pan con bágoas.
E tamén coñecín aquela outra, a que amou e pariu  e bicaba
cada anaco de boroa, ao repartila.
E coñecín ao home que a quixo tanto,
habitante en cortellos estrados de toxo.
Dunha soa col podía sacar sete vasos de leite
que sabían a col.
Compartían os fillos e as vacas tódalas súas coplas
e endexamais lles mencionou a guerra.
Non morrerá nunca, porque a paisaxe,
porque a paisaxe precisa a súa voz.
En noites de moito inverno,
retorna ao pé do lume e morde unha castaña,
unha por cada un dos fillos que se foron.

*
Luz Pichel Gonzalez



10 de junho de 2012

Suspensão

(foto: carlos silva)

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Suspensão

Quem estiver parado dentro deste cais
só de sonho aparelhado,
de ansia consumida pelos ventos abismais
que sopram nas cordas da vida,

réstias de uma dor calejada nos braços do barco
entrelaçavam a esperança com o medo do largo
com o resto do mundo que havia

agora o silencio leva-o até qualquer ilha deserta
acolher na pele o sol marejado,
na agridoce espera de cada dia incerto
definha a saudade
petrifica o cordame enrolado,
há nós górdios que lhe vedam o horizonte
e o prendem ao presente emaranhado

e o passado que conte tudo o que ainda é verdade
nesta absurda espera dos dias
em que está suspensa a liberdade


*


Luiz da Nóbrega


7 de junho de 2012

tumefacto

(foto: carlos silva)

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tumefacto

noites escorrem epilépticas nos cabelos do húmus
selváticas eclodidas das fendas de carne
engolem o eixo germinado de mundo

tumefacto é o facto de tu me fazeres

soçobram epidermes entre dedos de riste
quando se possui com o universo
o verso único enterra-se para cima

tumefacto é o facto de tu me fazeres

abóbadas agrestes desprendem plumas amarelas
para que a carne se coroe de alvura corrompida
tangida no gemido das salivas

tumefacto é o facto de tu me fazeres

olhos circundam a erectosfera ensalivada de lua
em busca da cegueira da ebulição primeva
a catalepsia desapercebida do rasante

tumefacto é o facto de tu me fazeres

desenho raízes que não se decifram
em fetos que se desconhecem
pela inutilidade emparedada das seivas labirínticas
envolvo-te fluída na minha rigidez

tumefacto é o facto de tu me fazeres

*
bruno resende

http://www.spabilados.net/

4 de junho de 2012

Ambocaçon pa la Luna Chena an Touro a partir de ls bigotes de Ártemis Gátara

(foto: carlos silva)

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Ambocaçon pa la Luna Chena an Touro
a partir de ls bigotes de Ártemis Gátara


a partir do azul, Janela que entreabre para que o corpo celeste penetre a Casa, invoco a cinta de la raposa e a transparência, para entusiasmo do felis catus que ronrona sobre a Mãe.
o leite sorvido até que o corpo articule a marcha, a mobilidade independente do receptáculo visível, é a continuidade da seiva que se move emotivamente para o vagar das coisas – contemplações; para a
pressa – exaltações da infância terrena que é a vida.
pequenos infantes da mesma ninhada em corpos e cores distintas, compõem a tela terrestre.
apesar da magnitude dos traços, dos movimentos subtis, do entusiasmo, da presa e do predador a que a sobre_vivência  impulsiona, apesar disso e do teatro primordial, do paganismo ou das infecções existenciais, das lutas e das quietudes; do Cosmos, só se avista o azul da Janela. Aberta ou fechada, em correntes altas de Lua Cheia, serenidades celestes ao esplendor Solar, ou manto divino de Selene nas suas variações de humor, forma, em perspectiva telúrica ou da magia nocturna de Hécate, o azul é a cor dominante.

amamentar a preto e branco o Ser já nascido com bigodes, que recebe as ondas mais vibrantes da Natureza, é sorte ao colo da cegueira.
o pequeno felino nasce para não ver, para se não ver. higiene protectora da origem num ambiente atormentado pelo desnecessário. dorme por sistema de conservação de energia.

preto e branco sugere o binómio – dois nomes – Ártemis Gátara. ciosa de si para Si.
a cópula é dolorosa para as fêmeas, contudo atribui-lhes a autonomia da procriação. fecundam óvulos separados que se reflectem na pluricoloração dos filhos.
lamber é um ritual de limpeza. o prazer nasce da despoluição.
possa a humanidade lamber a mente, urinar nos campos sadios, ronronar o infinito de cada percepção  derramar-se no sono como caudal lácteo da selva virgem. Rom.

Amar é criar Rama. Om Namo Rama Om.
é Estar habitado pelos deuses. as divindades exaltam-se entre Si.
subir ao telhado e uivar o cio é guerrear-Se.
o canto atrai as forças, abre canais de Energia Cósmica sobre a pelagem de Ártemis Gátara.
descarregar o cio a céu aberto para atingir a plenitude. Existir virado para dentro do ventre da Mãe.

a deusa Fastet dança a fertilidade em torno das searas da memória.
a Janela é um pedaço de floresta esculpida pelo homem.
Artemis Gátara presencia a Unidade de uma linhagem milenar.
co-habita miando a tolerância, minimizando o artefacto dos dias. no conforto circunscrito só a meditação viaja, descobre novos mundos.
desfazendo a meada, tudo habita nos olhos de um gato mas não se pode morar neles.
a Suspeita arranha e desnuda a veia da ousadia. ROm.

o que a alvura dos bigodes captam a partir da escultura Aberta, só a memória Cósmica lembrará na cadência das estrelas.
nesse altar do mundo em que felis Gátara ronrona redime-se a pequenez no cálice do olhar.
a humanidade formiga-se em torno do frasco de açúcar.
o Sabor é um rio no palato divino, sagra-se no organismo dos Simples. na lembrança da imaginação de um pardal, mia o desejo evitado de o devorar sobre a pedra lavada. mia para o exterior a epifania do seu corpo coberto de penas na dança erótica da grande vitória.
“Mio (tanta pena de ti)! ROm.”
“ó ai rom-rom
ó riu miu mui”
cuntinou la bielha tie ambalando l sou nino ambaixo la cápia de l sol.*

*

fátima vale


1 de junho de 2012

recursos abandonados

(foto: carlos silva)

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Recursos abandonados duma terra desbravada...A rusga dos vinhos calejaram as mãos que afagavam as aduelas e os aros das pipas. A torneira secava. Os animais perderam as forças coçando-se -se nas cangas polidas, e marcharam no sentido do cepos. Entretanto, caíam os telhados na debandada...



Virgílio Liquito