10 de julho de 2012

côncavo

(foto: carlos silva)

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Côncavo

Cólera nos meus olhos pequenos de passarinho morto
O pior chute é aquele que vem da inocência cortante das palavras
(a ainda menina e sua vulva violentada entre as coxas)
É preciso velar pelas bocas costuradas
Gosto de pintar homens sem faces
Subjugados pela insensatez dos ponteiros e de outros homens
- essa nossa vida anti-horário
A nos comer pelos pés.

Hoje as paredes caiadas discorrem mais a meu respeito
Do que cien años de soledad ao seu lado
De todo nosso amor anárquico
Restam-me ridículos pontos de luz furtados
Escapando rotos pelas venezianas trancadas
Agora seus gozos mancham outros úteros
Suas mãos convulsivas já não me dividem ao meio
Como a mim mesma – autoflagelo. 

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márcia barbieri
http://www.avidanaovaleumconto.blogspot.pt/

7 de julho de 2012

2 por 7: um soneto

(foto: carlos silva)

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2 por 7: UM SONETO

Leiria, noite de quarta-feira, 27 de Julho de 2011

Quando ao porvir anteponho as passadas vidas
que vivi já e já passei,
nem sei que diga, eu nem sei
quão negras são as rosas rubras fenecidas.

Do ido, olvido não faço, que o não quero:
esquecer, é ser-s’apenas quem
de pai não veio nem de mãe.
E eu vim e vou. Eu vim e vou. Por isso, espero

do amanhã coisa qualquer que a vida tenha
e manter queira no viver.
E seja o que tiver de ser:

que indo estou, vindo que sou, como hei-d’ir.
Tal tudo vem, tal tudo vai: tal mãe, tal pai.
         Se vou? Se vim? Rosa. Jardim.

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daniel abrunheiro




4 de julho de 2012

sabes do que tenho mais saudades?

(foto: carlos silva)

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Sabes do que tenho mais saudades? Daqueles nossos passeios junto ao rio, com o vento a acariciar as nossas faces e a tua mão a agarrar forte a minha. Tenho saudades desses tempos, saudades do que éramos e do que pretendíamos vir a ser.
Tantos anos passados e ainda parece que sinto a aspereza daquele "nosso" banco. Não de uma forma física. Apenas o sinto se fechar os olhos.
Na verdade, a única aspereza que agora sinto verdadeiramente é a da tua ausência. Ainda costumo ir até àquele banco, sabes? Fico sentada horas e horas a contemplar o rio que agora corre tão lentamente. Fico sentada à espera que algo de anormal aconteça, mas até agora nada. E por momentos sinto-te ao meu lado, sinto-te a agarrar-me novamente na mão e a sussurrares-me ao ouvido que o futuro a nós pertence. 
O rio mantém-se sereno. Quero acreditar que a tua alma também.
Se um dia precisares de mim, vem procurar-me ao "nosso" banco.

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Marta da Costa
http://tohollywoodwithlove.blogspot.pt/

1 de julho de 2012

non hai de que asustarse

(foto: carlos silva)

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Non hai de que asustarse, este corazón, este corazón nunca aceptará unha marca perdurable, percorrerá a terra, camiñará alegre, pero o arame da luz non chegará a facer presa na súa nervadura encarnada. Non hai de que asustarse, son as propias mans fechadas sobre o peito as que asombran a víscera, as que fan que non haxa lugar alí máis que para un brillo tépedo e fraterno.

Rexeitar calquera combate, deixarse ir, deixarse ser sen violencia, sen pretender devorar a alma que se achega e que te toca. Deixar que se queimen renegridos pans na porta do forno e preservar o orgullo, o lustre da coiraza.

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xina vega