23 de maio de 2012

A questão é essa mesmo: não somos nada!

(foto: carlos silva)

***

A questão é essa mesmo: não somos nada! Que somos nós? Um piscar de olhos. Minúsculas partículas… Pó cósmico, não é o que se costuma dizer? Minúsculas partículas perdidas no meio de biliões de outras pequenas partículas... e esses biliões de partículas habitam numa estrela em tudo igual a biliões de outras estrelas. Vês essa camada de pó aí no tablier? É como se fosse uma pequena nação. E nós? Uma dessas partículas. Quase invisíveis! E agora varro com a mão este aglomerado de pó... e assim desaparece uma nação e assim desaparecem seus habitantes. Agora sacudo as mãos para me livrar do pó. Voilà!
E mediante isto, ficas tu escandalizado por eu ter ‘arrumado’ um gajo. Ruanda? Conheces? É- te familiar o nome? Antes de tomares o pequeno-almoço, dezenas de crianças eram chacinadas. Não ouvi da tua parte qualquer frase reveladora de empatia, qualquer comentário sequer. E enches-me os ouvidos por eu ter fechado os olhos a um polícia gorducho!...

E a placenta rebentou! O momento era chegado! Nove meses de ansiedades, semanas de preparação, a placenta ao rebentar retirou-lhe o baralho das mãos, remisturando as cartas até então meticulosamente ordenadas. Sentiu-se como levado pela corrente de um rio – e era uma sensação tão ou maís física do que mental. Sentiu que todo o auto-controle, todas as convocatórias anunciadas a todos os recantos do seu corpo, eram coisa pouca perante aquilo. Olhou lá para fora pela única janela das redondezas. O sol pareceu-lhe maior.

Hugo Nascimento Veloso


1 comentário:

  1. Parabéns a Hugo Nascimento Veloso por este texto. Case nada! Poucas veces se ten dito a verdade tan espida e tan acertada. Como se fai para escribir así? Será cousa de pensar así? Levarao nos dedos?

    ResponderEliminar